segunda-feira, 19 de novembro de 2012

..have to be hurt like hell before you can write seriously.

“Forget your personal tragedy. We are all bitched form the start and you especially have to be hurt like hell before you can write seriously. But when you get the damned hurt use it—don’t cheat with it. Be as faithful to it as a scientist—but don’t think anything is of any importance because it happens to you or anyone belonging to you.”
ERNEST HEMINGWAY, em uma carta para F. Scott Fitzgerald

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Canivete

Estava calor.

O outubro mais quente desde 1967. Desde 1983. Desde 1580. A televisão dizia, o radio e os jornais também.
Pouco importava desde quando, pra ela estava o maior calor do mundo desde 1989, desde setembro passado, desde que o mundo se configurou como mundo e ponto. Era um calor realmente desgraçado.
E ela naquele quarto, sexta-feira. Ventilador barato bege-fusca, com poeira nas entranhas e na superfície, pra esquerda e pra direita, esquerda e direita, esquerda... Na velocidade máxima. Não aliviava. Comprava 12 cervejas por dia, era o que se permitia beber no final de semana - por dia. Elas esquentavam em menos de 5 minutos em sua mão, então arquitetava estratégias pra mantê-las frescas por mais tempo, mas era inútil.

A televisão reproduzia/produzia uma quantidade de merda inacreditável. Incrível. Disso tudo ela só absorvia medo do filhos-marido-gato-cachorro-casa. Receio da ignorância, inocência, cegueira. De fazer parte disso tudo. Tinha consciência de que tudo é interligado e o outro é ela e ela é o outro, e é a brisa que refresca, o cachorro fuçando o lixo, o apresentador expondo os coitados ao ridículo por dinheiro, o próprio dinheiro. Tudo fazia parte dela como uma extensão invisível. Algo que não se vê, mas sente, se tem certeza de que está la. Era um avanço essa percepção, uma evolução. Ah se o mundo tivesse mais gente consciente do inexistente limite do ser... Todos depressivos, porém convivendo em paz.
“Deve ser algum tipo de patologia eliminar o outro pra se sentir melhor em você.”
Não eliminar de extinguir, assim, ao pé da letra. Mas anular, tornar menos, insignificante, desprezar e não dar chance alguma.
É o que fazemos diariamente. O maior com o menor, e o menor com o invisível a olho nu.

O sol deu trégua e o ambiente no quarto se tornou pesado demais. Muito calor humano, com fumaça de cigarro, calor da televisão e computador. Cabeça pegando fogo, corpo em combustão espontânea. As opções disponíveis: “dormir, morrer ou sair”.

Não tinha medo de nada nessa vida. Insetos, répteis, altura, mar, fantasma, capeta, deus, mãe, pai, de si própria. De nada que conhecia e experimentara. Mas tinha medo de quem não conhecia e do que poderia encontrar. Por isso nunca saía sem seu canivete.

A ideia de cortar aquilo/aquele que não a agradava era linda demais. E pouco praticada. Achava que seria trágico banalizar o corte. Aquele que tira sangue, primeiro bem pouco, e aí o coração pulsa mais sangue, e esse jorra, e mancha a roupa/pele, e forma poça no chão. A camada de gordura aparente, depois o músculo. Sim, poético demais pra ser banalizado. A lâmina que rasga, expõe. O vermelho. Poderia viver disso. Mas não, não era psicopata. Não tinha tesão em matar e sim em cortar.

Tinha o sonho de fazer sentir dor todos aqueles enfadados pela rotina, asfixiados pela vida, com preguiça de se levantar pra abrir a janela e ver que tem um dia inteiro lá fora, que da pra viver tudo isso aí, sem ser um chato, avarento, mimado, desprovido de brilho nos olhos. Queria dar alguma sensação aos que não tem curiosidade, aos que deixam o livro pela metade.

Gente que tem medo de desafiar os próprios medos.

Cortar resolve. Ela era dessas criaturas infestando os metrôs, bancos, bares, passeatas e carnavais. Agora que sente dor, que vê o sangue, ela vive.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Drummond

terça-feira, 11 de setembro de 2012

This kind of life like everybody else’s kind of life: it’s killing us.

After dinner or lunch or whatever it was — with my crazy 12-hour night I was no longer sure what was what — I said, “Look, baby, I’m sorry, but don’t you realize that this job is driving me crazy? Look, let’s give it up. Let’s just lay around and make love and take walks and talk a little. Let’s go to the zoo. Let’s look at animals. Let’s drive down and look at the ocean. It’s only 45 minutes. Let’s play games in the arcades. Let’s go to the races, the Art Museum, the boxing matches. Let’s have friends. Let’s laugh. This kind of life like everybody else’s kind of life: it’s killing us.”

Post Office - Charles Bukowski

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Lesson 1

“Advice? I don’t have advice. Stop aspiring and start writing. If you’re writing, you’re a writer. Write like you’re a goddamn death row inmate and the governor is out of the country and there’s no chance for a pardon. Write like you’re clinging to the edge of a cliff, white knuckles, on your last breath, and you’ve got just one last thing to say, like you’re a bird flying over us and you can see everything, and please, for God’s sake, tell us something that will save us from ourselves. Take a deep breath and tell us your deepest, darkest secret, so we can wipe our brow and know that we’re not alone. Write like you have a message from the king. Or don’t. Who knows, maybe you’re one of the lucky ones who doesn’t have to.”

- Alan Watts.

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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Hollywood




- Gosto daqui, do bar, porque não importa muito sua cultura, seu status. Pelo menos nunca vi ninguém por aqui preocupado com isso, ao menos conversando sobre isso entre um gole e outro. E eu estudo bastante, leio bastante. Tenho um vasto conhecimento sobre cinema, por que quando não to no bar, me cubro até a cabeça e vejo uns três filmes, em seguida…
Ele discursava assim, sem parada, os pontos e vírgulas eu coloco, respeitando quem admiro muito – a gramática. Mas no discurso foi tudo ignorado.
- É eu sei… Eu também, não to muito interessada nisso tudo que você ta dizendo. Mas to aqui, te ouvindo. Sabe, às vezes acho importante ouvir os outros, mesmo no bar. Tem tanta conversa idiota por aqui, tanta gente cambaleando, tanto nos passos quanto nas ideias. Acho que beber tanto assim por tanto tempo danifica tudo aqui dentro. Corrói.
Ela levantou, abotoou a camisa e se retirou pra fumar. “Essa lei maldita anti-fumo” pensava.
Sentia saudade de quando acendia o cigarro dentro do estabelecimento, de quando fumava cigarro alheio por tabela e economizava os do maço dela.
Na mesa ao lado tinha um grupo de moicanos levantados. Verdes, vermelhos, e descoloridos. De longe, cabelos mais bonitos que o dela. De longe, divertindo-se mais do que ela. O que não era muito difícil. Pedro, o cara culto, havia levantado e não voltara mais pra mesa. “Menos mal” pensou, tragou, virou o copo e sentou ali, na sarjeta, enquanto um gato de rua roçava por entre suas pernas.
Os punks conversavam sobre um morto, uma morte e sobre o velório. Tico, dono do bar homônimo, sentou-se ao lado dela acendendo um Hollywood.
- Engraçado o nome desse cigarro, né pequena?
- Sim, Tico – Fingiu achar graça.
- Vi num filme antigo… O filme é atual, mas se passava antigamente… Que as pessoas iam la pra Hollywood tentar ser Marylin Monroe e Marlon Brando. E acontecia tanta merda, pequena. Inclusive uma garota, uma tal de Dahlia, foi esquartejada, estuprada, toda fodida mesmo, e só queria ser atriz. Eu achei triste por que me lembrei de mim e de você. Eu que vim do interior pra ser um escritor, e to aí com mais de cem poesias e contos mofando com toda essa umidade do caralho, servindo rabo de galo pra pedreiro e conhaque pra puta… Po, desculpa pequena… Mas você me entende. To aqui, nessa merda cheia de baratas, mais fodido que a pobre da Dahlia.
Dessa vez riu, achando graça mesmo. Depois achou triste. Tico a serviu da garrafa dele, e ela acendeu mais um cigarro.
- Mas continuando… Achei triste por que lembrei também do seu caso… Você veio pra cá com tanta esperança, eu lembro quando se mudou la pro prédio…
- Não Tico, eu vim pra cá pra ser qualquer coisa, e é isso que eu sou - uma coisa qualquer. Sirvo os mesmos drinks que você pros caras que comem as putas. Antes servisse as putas, Tico. Antes fossem as putas.
- Fico triste por você também, pequena… Merece coisa melhor.
- Tico, comprei esse celular novo aqui. O meu vizinho, aquele que faz USP, passou umas músicas pra ele. Comprei um chuveiro novo, tão quentinho. E o vizinho ganhou uma máquina velha de lavar. Agora eu tomo banho e lavo minha roupa ouvindo Pearl Jam. E o vizinho me fez um CV. Logo mais arrumo alguma coisa. To com grana pra pagar o aluguel e a minha conta aqui. A vida não ta tão ruim não, Tico. Olha só a situação do Pedro, poderia estar pior. Ele sim, ta tão fodido quanto a coitada da Dahlia.
Riram observando o culto cantando um Cazuza sozinho na mesa. Confundindo a letra. Ela apertou o ombro do dono do bar com um pouco de força. Era assim que se despedia. E foi, por que sim, merecia coisa melhor. Em seu apartamento fritou um ovo, gema mole que se desfez no prato branco. Fotografou o momento com o celular novo. Comeu o ovo com pão. Tomou meia garrafa de vinho. Fumou três cigarros. Ouviu o ‘Ten’ inteiro. E tomou o banho mais quentinho de toda sua vida.