terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Conversa de bar.

– Chorar de desespero é muito tolo e vazio. Chorar por desespero é muito pouco.

- Pouco como? Como pouco? Que mais eu posso fazer, to desesperado, porra. Vou la e a mato? Boto fogo no cadáver? 
E deu mais um trago desesperado no quase toco de cigarro. Cambaleava da esquerda pra direita tão suavemente, que chegava a ser poético.

- Mata. Bota fogo que já é suficiente pra matar. Não precisa resolver esse lance de desespero duas vezes. Bota fogo, sai da casa dela. Sai e deixa o desespero lá dentro. Ou se mata você. Só não vem até meu bar, chorar de desespero no meu balcão. Não faz isso com o meu sábado, cara.
Misturava freneticamente umas três coisas, que resultavam em um liquido viscoso, verde musgo. Parecia chorume, mas tomava como se fosse um licor fino. Quando acabava soltava o ar com forte cheiro de álcool, e um alívio tremendo.

- Você é meu irmão, uma merda de irmão, mas é o único que eu tenho. Vou chorar de desespero na porra de que balcão?
Lágrimas escorriam ainda. Dessa vez de vergonha. Gostava de conversar com seu velho irmão por isso, essa estranha capacidade de fazê-lo passar de merda a mosca sentada na merda em poucos minutos.

- No do bar da frente. La tem a ruiva dos seios fartos. Usa um perfume terrível. Mas ela deve ter uns conselhos melhores. Mais saco. Eu to sem saco nenhum pra merda de desespero de ninguém. Viesse a Marilyn Monroe e sentasse nesse mesmo banco, de peito de fora, chorando pelo Kennedy, eu mandaria a merda de qualquer forma. Meu irmão ou não. A foda mais sensacional do mundo, ou não. É sábado, e sabe o que eu faço de sábado? EU BEBO, seu maldito. Psicologia pra corno só as segundas, 200 pratas a hora.

- Você trabalha nessa merda. Fala como se estivesse a passeio. Vai se foder. Já te repeti mil vezes, TO DESESPERADO, cara. E você me vem com essa merda de “hoje é sábado”. Eu sei que porra de dia é hoje… Whisky duplo, pelo amor de deus. Com gelo.
Baixou os olhos, desabotoou os dois primeiros botões. Odiava a camisa, presente da vadia.

- Você trabalha. Você! Com aquelas máquinas de sei lá quantas toneladas, que podem te matar ou te arrancar mais um dedo em segundos. Eu bebo. E ganho pra beber. Deve ser por isso que nunca apareci chorando desesperado do lado de uma daquelas malditas máquinas onde VOCÊ trabalha.
Terminou o discurso rindo. Compulsivamente. E era sério, gargalhava. Não por escarnio. Mas por alívio. Por ter parado de sentir desespero, tristeza, paixão. E até o principal: tesão. O que movia o mundo: TESÃO. Pro inferno com o amor. O amor nasce de uma bela foda. O tesão te leva a isso. Te leva a redenção, mas também te deixa na miséria.
Suprimiu tudo isso. O fígado respondia muito mal, os rins pediam clemência, o pulmão vivia trancado, e os cabelos escassos. Mas o coração, tirando toda aquela gordura de bacon, passava bem. Sem grandes emoções. Sem fogos de ano novo, vida nova. Sem lágrimas de desespero.

- Ri bastante seu porco, bêbado, seu porco dos infernos. Se mije de tanto rir. Antes enche meu copo, e com um whisky bom dessa vez, que essa merda do Paraguai só engana você e os perdedores que sentam nessa merda de balcão…

O cara atrás do balcão pegou o cigarro e apagou no copo de whisky, onde só havia gelo.

- Me ouve bem seu merda, que esse é o primeiro e último diálogo que você vai ter comigo essa noite: o perdedor é você. Chorando de desespero. Sabe o que os adultos fazem desesperados? Eles pintam uma merda de um quadro, cheio de vermelho. Escrevem uma poesia, cheia de indiretas. Compõem uma música, cheia de dor. Vão as ruas e vandalizam os carros e placas. Tomam cicuta. Matam a esposa. Abrem a merda de um bar numa rua suja, trepam com prostitutas e morrem de cirrose. As crianças choram de desespero. As crianças não tem relacionamento, nem viram cornas desesperadas. Sai da merda do meu bar e vai viver a merda desse seu desespero patético. Se quiser solução com álcool, ok, é a única coisa que você vai achar nesse bar, em qualquer bar. Pode ser até a única solução no mundo. Mas se você ainda sonha com o ombro amigo e dormir abraçadinho com a mulher que te deu o par de chifres, isso é lá fora, aqui dentro só morte. Vida é lá fora.
Saiu de cena, em direção ao banheiro, com o ar superior do Tyler Durden. Trancou a porta, acendeu o filtro vermelho, sentou no vaso e tragou toda aquele desespero, aquela falta de vida que só um banheiro imundo de um bar decadente te joga na cara.

- Um drama até que cai bem as vezes.
Pensou, enquanto levantava o jeans

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Luiza, Camilla ou Jane.

- Faz essa noite passar rápido.
Era sua oração ao deitar, todas as noites, nos últimos dez ou doze anos. Ouvia Buddy Holly ou Everly Brothers. Sentia saudade da infância. Comprimido branco goela abaixo.
E fez-se uma noite de oportunidades perdidas. Noites e noites perdidas. Fez-se uma vida sem muitos acontecimentos marcantes. Nada que preencha uma linha do tempo de forma digna. Poderia ter sido tanto, feito tanto. Só é um artista que não faz nenhum tipo de arte, não objetivamente - Ou subjetivamente.

Caminha com pouco dinheiro e alguns sonhos no bolso. Preferia estar dirigindo, sabe? Aquela coisa poética de um carro acima do limite de velocidade permitida, embalado ao som dos Stones. O cigarro se esvaindo em fumaça pela janela escancarada e a moça bonita de pernas de fora sentada ao lado. Mas caminhava, e achou algum ideal poético nisso também. Meio ambiente, se dirigir não beba, exercícios físicos. Chegava, de certa forma, a ser mais bonito caminhar e encher os pés de calos, gastar as solas baratas nas calçadas da metrópole do que estacionar o carro na marginal, sem combustível nem cigarro. Muito menos a moça.

E sentiu que bastava. Bastava ser incompleto. Um conto inacabado. Sua vida vinha sendo uma sucessão de contos inacabados, escritos por um autor pretensioso e inexperiente.

As vezes sentava e meditava sobre esses últimos anos. E sobre os próximos. Gostaria profundamente de voltar ao ninho, ser recebido pela mãe de avental lavando o quintal de azulejos mistos. Ser expulso pelo pai quase todas as manhãs quando chegava bêbado. Voltar poucas horas depois mais bêbado ainda. Mas fez tudo errado, não fez por merecer. Desvirtuou completamente seu ideal de vida feliz. Solidão, cidade grande, quase nada de dinheiro na conta, sabia fazer quase nada pra mudar essa situação. E se jogou no mundo.

- Olha pra minha cara pai, eu sou um herói. Estou fazendo muito mais do que o senhor teve coragem de sonhar em fazer. Juro que estou. E vou voltar com tanta grana no bolso, que te digo pai, não teremos paciência nem pra contar. Só pra gastar. E eu vou beber o dia inteiro, que nem um maldito mendigo. E quando você se encher de mim, é só sair pela porta da frente. Estará a sua disposição. -Pensou nisso já no ônibus. Algumas lágrimas caíram. Sentiu que deveria ter ficado para o almoço. Sentiu que poderia ser o último prato de comida que sua mãe lhe serviria.

E por alguns dias estava tranquilo em relação a tanta coisa incompleta que deixara para trás. Qual o terrível problema em um conto incompleto?
Ansiava por um insight, um ideia, uma alternativa pra mudar essa cena tão clichê. Ansiava tanto, que provavelmente havia trombado em várias sem perceber. Logo na sua frente.

Colecionava empregos bizarros. Dessa vez fazia faxina em um templo Hare Krishna. Tinha alojamento, não colocava um pedaço de bife em sua boca há meses, com os trocados que recebia semanalmente tomava uma cerveja bem longe de toda aquela paz. Se achava meio conivente com a desgraça mundial por pensar assim, mas odiava toda aquela paz, toda aquela gente de cabelos compridos cantando e pregando no farol. Todo aquele verde, todo aquele alface e rúcula e suco de maracujá. Mas tinha uma cama e umas três pessoas pra conversar. Conseguiu uma máquina de escrever, a colocou no móvel abaixo da janela, com vista pra todo tipo de verde. Escrevia cartas, enviava algumas. Escrevia uns mantras, todos terríveis. Não servia mesmo pra esse negócio de fé, Deus ou Krishna.

Os anos 80 foram mágicos para ele. Se recordava que a sensação da época era de pura depressão e falta de perspectiva. Mas comparando com atualmente, ele estava bem. Ganhava algum dinheiro no jornal local, acabara de sair da faculdade com um leque de oportunidades – segundo o coordenador de curso dele, na colação de grau. Tinha o coração tão vazio e intacto. Quebrou vários, todos na década de 80. De alguns anos para cá sua vida sentimental era nula. Prostitutas não se davam bem com sentimentos. Ele muito menos. As admirava por tanto desprendimento emocional. E sexual.

Ele pensava ainda nos olhos claros de Luiza e suas longas mechas ruivas. Pensava no vestido verde de Luiza ao se despedir dele em 1983. “Nunca nenhum outro homem foi ou será tão terrível comigo quanto você, não se houver algum tipo de justiça nesse mundo”. Luiza levava jeito pras artes cênicas, não entendia porque insistia em ser manicure ou pedicure. Ou podóloga. Ou tudo isso junto. “Sinto muito Luiza, se você se contenta em escolher esmaltes e cortar unhas o dia inteiro, eu não. Vou ser grande, e vou escrever livros, e colunas, e resenhas e até roteiros. Farei Hemingway sentir inveja de mim, Luiza, lá dos quintos do inferno. Quem nesse fim de mundo invejará uma manicure, Luiza? Não me leve a mal querida, mas meus sonhos são tão enormes que se esqueceram de incluir você.” E viu Luiza algumas outras vezes, viu o marido de Luiza e viu os filhos. E se sentiu terrível, poderia te-la salvado do estilo de vida burguês da classe média. Poderia ter feito como Springsteen em Thunder Road. Mas se sentia mais como Bukowski em relação a Jane, e Bandini com a sua amada Camilla. Não encontrava salvação pessoal, não encontrava paz para si próprio. Como poderia fazer isso para alguma mulher? Nada entendia de mulheres e necessitava urgente de compreensão. Luiza nunca leu um livro na vida, no máximo Graciliano Ramos no 1º ano do colegial, como poderia salvar essa mulher de um destino tão certo? Então Camilla morreu, Jane morreu e Luiza morrerá. E não se passará um dia que não se sonhe com Luiza. Com Camilla ou com Jane.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Zelda Fitzgerald:

"I know I can be one of the great writers of musical lyrics - not that I can write melodies, and I try...
And then I hear the songs he writes, and then I realize:
I'll never write a great lyric, my tallent really lies in drinking."

(Midnight in Paris)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Enlightened.

“You can try to escape of the story of your life, but you can't.
It happened.
The baby died. The dog died. The heart broke.
I knew you when you were young. I know your heart broke too.
And I will know you when both old. And maybe wiser.
I hope wiser.
I know you now. Your story.
Mine isn't the one I would chosen in the beggining. But I'll take it.
It is my story. That's only mine.
And it's not over.
There's time.
THERE IS TIME.
There's so much time...”

 

 

Cada monólogo da Laura Dern me faz esquecer de respirar.