terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Domingo

Era domingo e parecia mesmo ser. Toda aquela densidade e o ar abafado, as janelas embaçadas e as cortinas cheirando a mofo. As nuvens cinzas cobriam o sol que, timidamente, aparecia vez ou outra pra lembrar que depois de todo domingo há uma segunda-feira. Parecia mesmo domingo. E o despertador não tocou, até os pássaros acharam desnecessário despertar cantando. Não há realmente nada necessário e urgente em um domingo.

Estava acordada há alguns minutos e pensava que poderia estar morta, e esse domingo seria bem diferente. Não sabia exatamente pra quem. Pra ele talvez.
Ao seu lado, quentinho, respirando fundo, cheirando a macarrão instantâneo e cigarro. Tão quentinho. E a salvou mais uma vez. Dessa vez de um perigo real. Poderia mesmo estar morta.

- Ei ei, acorda. Se aninhou no peito dele, beijou a testa. – Eu poderia mesmo estar morta. Vem vem, vamos tomar banho gelado, e sair, aproveitar que eu não morri pra viver um pouco… Imagina, eu morta! Logo eu que morro de medo só de pensar em estar morta. E aí que eu pensei bastante em estar morta e percebi que meio que já estamos. Não fisicamente, você sabe bem do que eu to falando né… Mas a gente não vê gente, nem lugares. E o cachorro come nossas sobras. E as nossas sobras são de pizza ou comida congelada. Sabe amor, que isso não é vida. Não é porque a gente está em São Paulo que a gente precisa ser São Paulo. Uma cidade não pode mudar ninguém assim. Você está fumando demais, eu to tomando muito café. Vamos fazer natação e aprender a dançar. Parcelar uma viagem pra Buenos Aires ou Cidade do México. Chega de preguiça da vida pra nós dois. Chega de preguiça de domingo. Levanta daí, vamos casar, ter dois filhos e comprar uma ração decente pro cachorro. Vamos começar já!

Ele estava acordado, mas fingia ainda dormir. Fingia estar morto. Fingia não desejar que o carro a tivesse atingido. Fingia não odiar o falatório logo cedo. Fingia que ainda era cedo só pra passar mais quatro horas na cama. Fingia não ter bafo de álcool e ter um emprego. Fingia que o apartamento e o cachorro também eram dele. Fingia estar vivo, quando na verdade estava tão morto o coitado.

- Amor você não morreu, eu te salvei daquele maldito na contra mão. Ta tudo certo. Volta pra cama. Aproveita que você está viva e vem dormir comigo mais um pouco…

- Se eu estivesse morta ia fazer merda de diferença nenhuma né? Você estaria aí deitado de ressaca, perdendo meu enterro… Filho da puta.

Ele levantou, e bateu meia hora na porta do banheiro, fingindo que seria tudo terrivelmente diferente se ela estivesse morta.