terça-feira, 27 de março de 2012

Sobre os que sentem.

Nunca me achei muito digno de coragem.
Sempre vi a covardia mais a minha cara.
Minha cara covarde, sempre a vi estampada no espelho.
Não tenho nem jeito ou vocação pra herói, salvador, última esperança.

Em um mundo onde todo mundo tem um talento, uma serventia, mil qualidades e mil defeitos – todos tão charmosos. Ninguém envelhece. Todos tomam banho 3 vezes ao dia, se vestem bem, tem bons empregos, carro, pessoas interessantes a sua volta… eu sobro.

E imagino…
Imagino o trabalhador que – por obrigação -
cumpre sua rotina.
Não tem  nada, além de sua rotina.
E comida fria quando chega cansado, a noite,
com os pés latejando.
E que sente a dor, o vazio, a carência, a falta de amor, saudade, desprezo, medo, angustia…
Que sente, mas não sabe dizer. Não sabe nem como sente. Não lê sobre o que sente. Nem tem conhecimento de outros sentindo.
Só se levanta junto com o sol e se deita junto com o mesmo.

E eu, que sinto e me expresso, que sinto e sei. Que sei que sinto muito, e que sei pouco,
desejo um quintal de grama, uma xícara de café nas mãos, um cafuné na cabeça, e passarinhos que não me deixem dormir mais que 6 horas… E desejo.

Por que eu sou sim, um homem bem covarde. Tenho medo das caras sonolentas no metro logo cedo. Dos “bom dia” com hálito de cigarro. Tenho medo de buzina e campainhas tocando a noite. Telefonemas de madrugada… Adultos desesperados e crianças felizes. Pegar no sono com a televisão ligada.
Tenho tanto medo.

Tenho medo do que sinto e que expresso. Tenho medo de estar sentindo o avesso, e no fim,
acabar no mesmo quarto escuro que o que sente, sabe, mas não diz.