quarta-feira, 11 de abril de 2012

Carniça.

Entregou CVs o dia inteiro.
-É chato virar gente, mas é necessário.
Colocou a ideia na cabeça, uns panos mais ou menos no corpo inchado de cerveja, o sapato do emprego anterior nos pés mal feitos de unhas vermelhas e assim, sem dormir, saiu de casa junto com o sol e realmente entregou CVs a manhã inteira.
Ou o dia. Pouco importa. O fato é que entregou todas as cópias que tirou com algumas moedas.

Passando pelo conjunto comercial ficou sem graça com as moças que olhavam-na como se fosse o cão vira-lata implorando as sobras dos croissants com o olhar triste, as orelhas em pé e a cabecinha meio de lado. As moças eram de uma outra realidade, outro planeta talvez. De saltos, decotes de tecidos sedosos, celulares com mil e uma funções, e falavam demais. Com as outras moças, com o garçom, no celular, consigo mesmas.
Perguntou-se por alguns instantes se aquilo ali era virar gente. Seu pé suava e doía, a vontade de chorar já havia passado do estômago para a garganta, e o cabelo ressecado de química mal aplicada precisava de uma hidratação.

No banheiro tirou os sapatos, se refrescou com água fria e sentou num canto, procurando abrigo. Fugindo da vergonha de ser nada. Sentiu ódio das moças no café e de cada dono de comércio que deixou de olhar nos olhos dela quando entregou o CV meio amassado e com marcas dos dedos suados. Sentiu ódio por não se encaixar nisso tudo. Pela falta de dinheiro pra fazer cursos e colocá-los no CV com orgulho, pela falta de compaixão pra fazer algum serviço social e mostrar pros empregadores como era uma boa moça.

Passou mais uma vez pelo centro comercial e decidiu que voltaria em breve. Passou por uma rodinha de crianças fumando crack. Cruzou a passarela rabiscada cheirando a mijo e mendigo. Chegou no seu bairro. Cumprimentou Gorete, a responsável pela química mal feita. Estava no bar  do Tico a desgraçada, as 13h15.
-Maldita, bebendo com o dinheiro dessa bosta de tintura.
Puxou uma cadeira na mesa de Gorete. Estava acompanhada de um ser, difícil reconhecer o sexo, apostou numa mulher extremamente parecida com um homem. Mais parecida com um homem que muito homem por aí.
-Essa hora na rua menina? Ta começando cedo o turno?
-Não… Tico traz uma gelada, um copo, sem cheiro de ovo… Fui procurar emprego, sair dessa vida, vou virar gente.
-Nesse mundo, mocinha…  Falou a mulher-homem – Nesse mundo só é gente quem tem dinheiro, se você dando suas voltas ganha algum, ta aí… é gente.
Gorete riu, e beijou a criatura na boca.
-Nesse mundo talvez. No mundo por aí gente usa salto, tem notebook e celular. Cheiram a Paris…
-Essa gente você nunca vai ser menina. Desiste.
-Não com essa merda de cabelo aqui. Puta merda Gorete… Você cagou e sentou em cima dessa vez.
-Com a grana que eu te cobrei agradeça por não estar careca.
Foi a vez da criatura mulher-homem rir. Riu mais grosso que muito homem por aí.
-Vai se foder vadia… Tico, marca essa na conta…

Levantou, a criatura sem sexo definido vociferou um pouco, fez umas ameaças, mas foi contida por Gorete.
Passou em frente a boate. Aberta. Fumaça de cigarro e a música deprimente saiam pela porta como que querendo fugir de tanta podridão.
-Sheila, posso começar mais cedo hoje? Falou com a semi-nua da porta.
-AGORA? VOCÊ? Que aconteceu com a regra de não ter nada a ver com essa merda aqui antes das 23?
-É eu sei… Preciso de uma celular e uns sapatos novos… Posso?
-Entra querida, tem quase ninguém… Mas quem sabe. Ajuda a servir os drinks.

Entrou, se trocou no banheiro. Chorou. Refez a maquiagem. Chorou de novo. Refez a maquiagem e se mordeu pra não estragar a pintura mais uma vez.
Serviu a primeira cerveja barata da noite, pro velho asqueroso com a cara esburacada, pensando em quantas vezes teria que rolar na carniça que nem o cachorro vira-lata até conseguir se tornar gente.