quarta-feira, 30 de maio de 2012

Estrada das Dores.

A vida era boa quando acordava imortal, sábado de manhã.
Essa sensação de infinito era gostosa por um tempo, como abrir um livro, tira-lo do plástico, sentir cheirinho de novo e se deparar com folhas brancas. Todas as folhas brancas.
Depois cansava. Mas aí já era hora de dormir.

Ouviu blues  - vindo do quarto ao lado do seu - a noite inteira. Blues não incomodava, de forma alguma. O que a manteve desperta foi o Howlin’ Wolf. Dava medo. Como se tanta perfeição pudesse sair apenas das feitiçarias de algum demônio. Todo blues depois da meia noite parecia pacto com o capeta.
Pensou no capeta a noite inteira, e nas lamúrias do Howlin’ Wolf. Se assustou com todos os vultos que passavam por sua janela. Adormeceu já era dia, 2 minutos depois do vinil enroscar, e a melodia se tornar mais tenebrosa que a possível aparição do demônio.

Dormiu pouco tempo.
Acordou desconhecendo a morte. O tempo. Só sabia de vida. Do sempre. Apesar da contradição e desse monte de sensações completamente inconvenientes, tentou não racionalizar ou somatizar nada. Apenas continuou sendo.
Seu carro estava encostado em uma borracharia alguns quarteirões a direita. O pneu furou e o motor precisava de água. Achou estranho o borracheiro dizer que “fora isso, seu carro ta novo, dona”. O carro era de 70 e tantos. Qualquer chave que coubesse na ignição dava partida no maldito. O que não era problema algum. Era um carro indesejado. E essa era a característica mais bonita dele.

Na calçada, um homem com um cachorro dormindo ao seu lado e um pássaro preso em uma gaiola, tocava gaita. Recitava Rimbaud entre umas assopradas e outras e dizia que era Baudelaire. usava uma camiseta do Morrissey. Vendia vinis, livros e fitas K7. E palavras. Mas essas ele doava.
Achou meio egocêntrica essa atitude de distribuir sabedoria fantasiada de algum ideal hippie ou anarquista nas ruas. Mas devia ser bom ganhar a vida gozando com a depressão de outro poeta.

Passou por ele: “Isso é Baudelaire.”
Ele a olhou e deu uma piscadela, do tipo “ok, mas não espalha.” Ela riu, acariciou a cabeça do cachorro com alguns dread locks de sujeira e gosma, e deixou alguns centavos ao lado da gaiola.

Ele se posicionou num lugar meio estranho em uma hora mais estranha ainda, pra semear arte e conhecimento. A cafeteria nesse horário era cheia de operários e cowboys que lidavam com as plantações e vacas, cavalos e border collies. No máximo uns adolescentes comprando refrigerante e achocolatado de caixinha. Ninguém ali parecia se interessar por arte, por poesia, pelo poeta, cachorro ou pássaro. Ou Smiths.

Entrou e passou mal no mesmo instante. Se lembrou exatamente porque sumiu do interior assim que teve a primeira oportunidade, se lembrou de quando sentiu saudades e pediu a tudo que existe de mais sagrado um prato de comida quentinho preparado por sua mãe. Se lembrou principalmente das tarde com sua avó, dos bolos e sucos das frutas colhidas direto dos pés no pomar. De quando sua avó ia tomar banho e arrumar o cabelo e ela se esgueirava quarto adentro em busca dos calmantes e remédios pra tosse com gosto de framboesa. Sua avó era uma santa, uma mulher diferente. Ela fazia de tudo pra engordar todo mundo. ODIAVA magreza, odiava tudo que era de menos. Gostava de abundância. E esse era o espírito, antes sobrar…
Recuperou o fôlego, passou a mão sobre a lágrima que já tinha alcançado o lado da sua boca, pagou pelo café e pelos cigarros.
Na saída misturou um pouco do uísque barato no copo térmico, verificou a nova mensagem no celular:
"Stella, o enterro acontece as 14. Favor chegar com antecedência se não quiser ir ao cemitério com essa sua provável cara de encosto. Sua avó está morta, mas te observa como sempre. Cuidado na estrada.”

Sua mãe era a pessoa mais desprovida de sentimento e sensibilidade que havia conhecido. Temia parecer um pouco com ela. A personalidade da mulher morta, o espírito da mulher morta, era tudo tão mais lindo. E morto. A mulher viva, a verdadeira naja, viva. Odiava tudo que existia de mais sagrado no mundo nesses momentos.

O poeta não estava mais jogado na calçada. Nem o cachorro, o pássaro ou as poesias. Jazia por ali o jornal de ontem, bitucas de cigarro e uma garrafa de vinho, de uma qualidade razoável.

A borracharia estava aberta desde sempre, e muito bem frequentada, como costumam ser as borracharias. Procurou pelo cowboy-mecânico-borracheiro que falava mascando um chiclete de 10 anos atrás.
- Olha moça, Stella né – disse olhando pra mão, procurando a anotação em meio a toda graxa do mundo – acontece que o problema do seu carro é um pouco mais complicado. Chamei o mecânico do fim da Estrada das Dores, ele chega com o o guincho por volta do meio dia, acho que pelo fim da tarde seu possante ta na estrada, de novo…
- Acontece moço que eu não posso esperar. Tem um defunto me esperando pra ser enterrado, um defunto que viveu quase 90 anos. Não é justo que eu a faça esperar mais ainda nessa merda toda, e dentro de um caixão com  aquelas flores terríveis, a velha era alérgica.
- Dona, acho que o defunto, assim como seu carro, não está em condições de sair pra lugar nenhum agora. Seu eu fosse você eu esperaria, assim como o defunto certamente irá fazer.
- Ok, você claramente está usando de uma ironia que não tem capacidade intelectual pra sustentar e abusando da minha paciência de 2 horas de sono. Faz o seguinte… – pegou uma caneta e a mão do cowboy, terrivelmente áspera e calejada, e anotou o número de telefone abaixo do seu nome, quase apagado – conserta o carro, coloca água e abastece, faz o que tiver que fazer. Na volta eu te pago e levo o carro. Só cuida bem dele, que é a única coisa que eu tenho.
- Como a dona quiser…

Andou uns 20 minutos até alcançar a estrada. Olhou pro sul e para o norte, NADA. Acendeu o cigarro, deu um gole no uísque. “Vó, você nunca ia deixar isso ser fácil pra mim né? Nunca.” Riu. Essa ironia sim sustentava-se por si só, sem grandes esforços.
Abaixou-se pra deixar a mala no asfalta e ouviu uma buzina.
Incrível, mas era o poeta, o cachorro, o pássaro e o Morrissey. Tudo isso em uma pick up nova e preta.

- Vai ficar muito tempo aí surpresa ou vai aceitar a carona?
- Não me ofereceram carona alguma, então enquanto isso curto essa deliciosa sensação de ser surpreendida.
O poeta tinha um belo sorriso, apesar da placa bacteriana.
- Sobe, to andando sem destino, então te deixo no seu. Você tem destino?
- Sim, o pior de todos.
Entrou na pick up, dividiu espaço com o zoológico por 3 horas e ouviu Doors, Sprinsgsteen e Zeppelin com o poeta, que foi agradável o bastante pra não dizer uma palavra sequer durante a viagem toda.