terça-feira, 14 de agosto de 2012

Hollywood




- Gosto daqui, do bar, porque não importa muito sua cultura, seu status. Pelo menos nunca vi ninguém por aqui preocupado com isso, ao menos conversando sobre isso entre um gole e outro. E eu estudo bastante, leio bastante. Tenho um vasto conhecimento sobre cinema, por que quando não to no bar, me cubro até a cabeça e vejo uns três filmes, em seguida…
Ele discursava assim, sem parada, os pontos e vírgulas eu coloco, respeitando quem admiro muito – a gramática. Mas no discurso foi tudo ignorado.
- É eu sei… Eu também, não to muito interessada nisso tudo que você ta dizendo. Mas to aqui, te ouvindo. Sabe, às vezes acho importante ouvir os outros, mesmo no bar. Tem tanta conversa idiota por aqui, tanta gente cambaleando, tanto nos passos quanto nas ideias. Acho que beber tanto assim por tanto tempo danifica tudo aqui dentro. Corrói.
Ela levantou, abotoou a camisa e se retirou pra fumar. “Essa lei maldita anti-fumo” pensava.
Sentia saudade de quando acendia o cigarro dentro do estabelecimento, de quando fumava cigarro alheio por tabela e economizava os do maço dela.
Na mesa ao lado tinha um grupo de moicanos levantados. Verdes, vermelhos, e descoloridos. De longe, cabelos mais bonitos que o dela. De longe, divertindo-se mais do que ela. O que não era muito difícil. Pedro, o cara culto, havia levantado e não voltara mais pra mesa. “Menos mal” pensou, tragou, virou o copo e sentou ali, na sarjeta, enquanto um gato de rua roçava por entre suas pernas.
Os punks conversavam sobre um morto, uma morte e sobre o velório. Tico, dono do bar homônimo, sentou-se ao lado dela acendendo um Hollywood.
- Engraçado o nome desse cigarro, né pequena?
- Sim, Tico – Fingiu achar graça.
- Vi num filme antigo… O filme é atual, mas se passava antigamente… Que as pessoas iam la pra Hollywood tentar ser Marylin Monroe e Marlon Brando. E acontecia tanta merda, pequena. Inclusive uma garota, uma tal de Dahlia, foi esquartejada, estuprada, toda fodida mesmo, e só queria ser atriz. Eu achei triste por que me lembrei de mim e de você. Eu que vim do interior pra ser um escritor, e to aí com mais de cem poesias e contos mofando com toda essa umidade do caralho, servindo rabo de galo pra pedreiro e conhaque pra puta… Po, desculpa pequena… Mas você me entende. To aqui, nessa merda cheia de baratas, mais fodido que a pobre da Dahlia.
Dessa vez riu, achando graça mesmo. Depois achou triste. Tico a serviu da garrafa dele, e ela acendeu mais um cigarro.
- Mas continuando… Achei triste por que lembrei também do seu caso… Você veio pra cá com tanta esperança, eu lembro quando se mudou la pro prédio…
- Não Tico, eu vim pra cá pra ser qualquer coisa, e é isso que eu sou - uma coisa qualquer. Sirvo os mesmos drinks que você pros caras que comem as putas. Antes servisse as putas, Tico. Antes fossem as putas.
- Fico triste por você também, pequena… Merece coisa melhor.
- Tico, comprei esse celular novo aqui. O meu vizinho, aquele que faz USP, passou umas músicas pra ele. Comprei um chuveiro novo, tão quentinho. E o vizinho ganhou uma máquina velha de lavar. Agora eu tomo banho e lavo minha roupa ouvindo Pearl Jam. E o vizinho me fez um CV. Logo mais arrumo alguma coisa. To com grana pra pagar o aluguel e a minha conta aqui. A vida não ta tão ruim não, Tico. Olha só a situação do Pedro, poderia estar pior. Ele sim, ta tão fodido quanto a coitada da Dahlia.
Riram observando o culto cantando um Cazuza sozinho na mesa. Confundindo a letra. Ela apertou o ombro do dono do bar com um pouco de força. Era assim que se despedia. E foi, por que sim, merecia coisa melhor. Em seu apartamento fritou um ovo, gema mole que se desfez no prato branco. Fotografou o momento com o celular novo. Comeu o ovo com pão. Tomou meia garrafa de vinho. Fumou três cigarros. Ouviu o ‘Ten’ inteiro. E tomou o banho mais quentinho de toda sua vida.