quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Canivete

Estava calor.

O outubro mais quente desde 1967. Desde 1983. Desde 1580. A televisão dizia, o radio e os jornais também.
Pouco importava desde quando, pra ela estava o maior calor do mundo desde 1989, desde setembro passado, desde que o mundo se configurou como mundo e ponto. Era um calor realmente desgraçado.
E ela naquele quarto, sexta-feira. Ventilador barato bege-fusca, com poeira nas entranhas e na superfície, pra esquerda e pra direita, esquerda e direita, esquerda... Na velocidade máxima. Não aliviava. Comprava 12 cervejas por dia, era o que se permitia beber no final de semana - por dia. Elas esquentavam em menos de 5 minutos em sua mão, então arquitetava estratégias pra mantê-las frescas por mais tempo, mas era inútil.

A televisão reproduzia/produzia uma quantidade de merda inacreditável. Incrível. Disso tudo ela só absorvia medo do filhos-marido-gato-cachorro-casa. Receio da ignorância, inocência, cegueira. De fazer parte disso tudo. Tinha consciência de que tudo é interligado e o outro é ela e ela é o outro, e é a brisa que refresca, o cachorro fuçando o lixo, o apresentador expondo os coitados ao ridículo por dinheiro, o próprio dinheiro. Tudo fazia parte dela como uma extensão invisível. Algo que não se vê, mas sente, se tem certeza de que está la. Era um avanço essa percepção, uma evolução. Ah se o mundo tivesse mais gente consciente do inexistente limite do ser... Todos depressivos, porém convivendo em paz.
“Deve ser algum tipo de patologia eliminar o outro pra se sentir melhor em você.”
Não eliminar de extinguir, assim, ao pé da letra. Mas anular, tornar menos, insignificante, desprezar e não dar chance alguma.
É o que fazemos diariamente. O maior com o menor, e o menor com o invisível a olho nu.

O sol deu trégua e o ambiente no quarto se tornou pesado demais. Muito calor humano, com fumaça de cigarro, calor da televisão e computador. Cabeça pegando fogo, corpo em combustão espontânea. As opções disponíveis: “dormir, morrer ou sair”.

Não tinha medo de nada nessa vida. Insetos, répteis, altura, mar, fantasma, capeta, deus, mãe, pai, de si própria. De nada que conhecia e experimentara. Mas tinha medo de quem não conhecia e do que poderia encontrar. Por isso nunca saía sem seu canivete.

A ideia de cortar aquilo/aquele que não a agradava era linda demais. E pouco praticada. Achava que seria trágico banalizar o corte. Aquele que tira sangue, primeiro bem pouco, e aí o coração pulsa mais sangue, e esse jorra, e mancha a roupa/pele, e forma poça no chão. A camada de gordura aparente, depois o músculo. Sim, poético demais pra ser banalizado. A lâmina que rasga, expõe. O vermelho. Poderia viver disso. Mas não, não era psicopata. Não tinha tesão em matar e sim em cortar.

Tinha o sonho de fazer sentir dor todos aqueles enfadados pela rotina, asfixiados pela vida, com preguiça de se levantar pra abrir a janela e ver que tem um dia inteiro lá fora, que da pra viver tudo isso aí, sem ser um chato, avarento, mimado, desprovido de brilho nos olhos. Queria dar alguma sensação aos que não tem curiosidade, aos que deixam o livro pela metade.

Gente que tem medo de desafiar os próprios medos.

Cortar resolve. Ela era dessas criaturas infestando os metrôs, bancos, bares, passeatas e carnavais. Agora que sente dor, que vê o sangue, ela vive.

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